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Vergonha na cara
Por Sylvio Sebastiani

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O homem que flagrou a corrupção em Brasília
Parte 5

3 - Como conheci o Sr. Artur Wascheck e como surgiu o convite p/ a gravação. Quantas foram feitas e a verdade sobre os R$ 3.000,00 dados como propina. Continuação.
Face ao clima criado com a visita de dois “qualificados representantes” de uma empresa que poderiam resolver as ambições do Sr. Marinho, este deu início a uma conversa e descrição de procedimentos que duraram 01h58min, em que descrevia todo o envolvimento de Diretores dos Correios, que segundo ele atuavam em colegiado nas decisões importantes; descrevia também as comissões cobradas, que se fossem em licitações de materiais, subiam para serem rateados os valores de 3%, e se fossem licitações de contratação de serviços, os valores seriam de 10%, e que segundo eles, seriam rateados entre os diretores, inclusive o Presidente dos Correios.
Descrevia ainda todo o envolvimento e comando de Roberto Jefferson através de seus braços representados por genro ou filho (pessoalmente após a deflagração de tudo isto e vendo as denúncias, explicações e argumentos que soam quase como provas, feitas pelo Deputado Roberto Jefferson, tem-se a impressão até de que houve mesmo o exagero eufórico de Marinho em querer dividir suas responsabilidades com uma figura mais proeminente como o Deputado, crescendo às nossas vistas, demonstrando poder e autonomia, e, desta forma garantindo seu quinhão), além de toda a pormenorização técnica e arquitetura de fraudes, de forma a branquear os procedimentos escusos e criminosos de que se valia para consumar os objetivos e metas almejadas por seus superiores. Via-se claramente a empolgação do Sr. Marinho, na demonstração de eficiência, pois o que buscava de nossa empresa era a sua aposentadoria, não pelos meios oficiais, mas “oficiosos”.
Esclareceu-me, o Sr. Jairo Martins, que a sua mala teria capacidade para 5h de gravações, e que eu poderia ligá-la no momento em que saísse do carro até o momento do final das negociações, sem me preocupar com o tempo de gravação. Ocorre que quando concluída a última gravação e marcado para entregar-lhe a pasta no saguão do Hotel Parthenon em que meu amigo do Rotary estava hospedado, pedi-lhe que nos mostrasse se efetivamente as imagens e provas colhidas estavam lá. Notamos que gravou quase duas horas, mas que o final de nossa entrevista com Marinho havia ficado sem registro. Não que isso importasse, mas apenas relato complementarmente.
Na medida em que Marinho avançava em suas descrições épicas de corrupção, a perplexidade também tomava conta de meu amigo do Rotary, pois apesar do que eu havia lhe resumido e contado, ele não esperava ouvir tudo aquilo, daquela forma tão natural e de portas abertas, tal era a certeza de impunidade em que a pessoa do Sr. Marinho se recobria. Houve um momento então, ao final da conversa, em que meu amigo do Rotary, atônito, e até meio inseguro e trêmulo, pediu a Marinho que não o levasse a mal, mas, que se o mesmo poderia lhe devolver o cartão, enunciando uma desculpa qualquer, ao que foi pronta e naturalmente atendido pelo Sr. Marinho.
Bem, após essa que seria a última filmagem que eu faria, desse ou não resultado satisfatório, fiquei mais alguns dias em Brasília tratando de assuntos relativos a interesses de meus clientes e suas empresas. Acabei retornando a Curitiba sem falar com Arthur pessoalmente o qual encontrava-se em viagem para SP (aliás o que era comum, pois algumas vezes em que me via hospedado na residência deste, sempre conversávamos muito pouco em função de seus afazeres e constantes viagens para RJ,SP e alguns outros estados do Norte/Nordeste), mas, já nessa ocasião, expus minha preocupação ao telefone, novamente quanto ao não aparecimento do Sr. Jairo com a versão em DVD da fita já passados alguns dias da gravação, ao que Arthur me respondeu que provavelmente ele estaria envolvido com alguma outra tarefa, mas que eu não me preocupasse que ele tentaria um contato com Jairo e retornaria para me tranqüilizar.
Gostaria por fim, de deixar claro a intenção de apresentar-me à PF, tão logo notei que o Sr. Jairo Martins demorou-se na entrega dos CDs ao Sr. Artur, comecei à pressentir grande confusão; isso deu-se após eu ter filmado pela última vez Mauricio Marinho. Nessa ocasião, voltei à Curitiba, e, uns 2 dias depois liguei p/ o Artur para saber se Jairo já lhe havia entregue o CD para que este, Artur, pudesse enviar as cópias deste material p/ os chefes imediatos do Sr. Marinho, possibilitando a estes (Sr. Osório-Diretor de Departamento) o conhecimento da forma e atuação de seu imediato, e assim procedessem a tomar as deliberações justas e cabíveis, conforme era a intenção de Artur relatada a mim quando de minha concordância em documentar o flagrante.
Decorridos mais algum tempo, liguei novamente para Artur, perguntando-lhe se já havia feito contato com Jairo, e, mais uma vez disse-me que não havia conseguido localizar; comecei então a passar a um outro estágio de preocupação; pois era ele, Artur, quem tinha negócios em Brasília e residia lá; não eu, que apenas lhe havia prestado um favor.
4 - C.P.M.I. (Comissão de Parlamentares Motivados à Insultar)
A CPMI dos Correios é uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, ou CPI; a diferença é que a primeira é formada por Deputados e Senadores, por esta razão é chamada de Mista; é uma investigação conduzida pelo PODER LEGISLATIVO, que transforma a própria casa parlamentar em comissão para ouvir depoimentos e tomar informações diretamente, quase sempre atendendo aos reclamos do povo.
A ementa do pedido para criar a CPI é de autoria do Senador José Agripino.
Ementa: Requerem, nos termos do § 3º do art. 58 da Carta Maior e na forma do art. 21 do Regimento Interno do Congresso Nacional, a criação de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para investigar as causas e conseqüências de denúncias de atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios - Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
O relátorio final foi aprovado em 5 de Abril de 2006 com 17 votos favoráveis e 4 votos contrários
No Brasil teve sua origem para investigar o escândalo dos Correios. Com o tempo passou a investigar o escandalo do mensalão.
Tão logo fui posto em liberdade, saí acompanhado de advogado, em direção a uma multidão de repórteres, que aguardavam ávidos, por folclóricas notícias. O primeiro a me interpelar foi um jovem repórter de conhecida rede de TV que me causou grande tristeza, pois a primeira pergunta dele foi mais ou menos com estes termos:
“Qual a lição que o senhor teria aprendido com tudo isto?” Ao que, com muito esforço, ofuscado pelas luzes esfuziantes dos iluminadores, respondi: “como cidadão brasileiro aprendi que se em alguma outra oportunidade vier a presenciar um roubo, furto, furto qualificado, um estupro, ou mesmo um funcionário público corrupto em pleno exercício de suas ilicitudes, aconselharia a qualquer outro igual a mim a sair a jato do local, pois estaria correndo o risco de ser preso e acusado de crime”.. Após esse dia permaneci em Brasília, pois minha intenção era que os policiais me devolvessem o computador e meus pertences, como agenda, telefones, gravadores processos de clientes (fotoc.), enfim..., o que pudessem, para que eu pudesse retomar meu trabalho. Observo, decorridos quase dois anos e meio, nada me foi devolvido, sequer explicações oficiais (temo por meus dados, pois na agenda estão contidas também minhas senhas, outros dados, bem como meus contatos e documentos retirados do meu escritório).
Tenho, desde então, tentado trabalhar com inimagináveis dificuldades (minha imagem foi negativada em todos os veículos de comunicação assim como meu nome nos orgãos de proteção ao crédito– já na chegada nos lugares é comum ouvir: “te conheço não sei de onde... não é do caso dos correios?”). Mas, tentando retomar, permaneci em Brasília onde não consegui reaver meus pertences por mais uma semana e meia. Devolveram apenas os documentos pessoais como identidade, motorista, titulo de eleitor, apenas de uso pessoal sem os quais eu nem poderia retornar à Curitiba. Retornei às minhas expensas, pois da PF ganhei apenas a cortesia da IDA; e permaneci mais alguns dias em minha casa (no endereço violado, com todos os traumas próprios, além de uma vizinhança curiosa, desconfiada e temerária).
Nos dias que se seguiram, tomei conhecimento pela imprensa que eu seria convocado a depor na “CPMI dos Correios”, no dia 28 de junho de 2005, ao mesmo tempo em que recebia uma convocação oficial (no endereço violado) da Câmara dos Deputados para depor na “Comissão de Ética da Câmara” (“antiética” seria mais atual, real e apropriado). Como não houve contato telefônico, ou qualquer outro meio de comunicação, tampouco o envio de passagens, tive de emprestar dinheiro para adquirir passagem e custear minha ida e estada na Capital Federal e poder estar presente à convocação. Dessa CPMI só tomei conhecimento que iria depor através da imprensa, mas nunca recebi nenhuma convocação oficial.
Pelo que sei todos que foram convocados não foram às suas expensas depor – claro que não posso esquecer a “cortesia” da viagem com os policiais federais, na primeira ida. De qualquer forma, ao raiar de um “belo dia”, lá estava eu indo para o Congresso Nacional depor para Suas Excelências Deputados e Senadores da República, e, detalhe, às minhas expensas novamente (isto é, paguei para ser insultado, execrado e maltratado, portanto, a eles nada devo!).
Devo confessar que pior do que as adversidades que até ali havia vivenciado, foi enfrentar parlamentares sem preparo (alguns até com passado questionável, que estão ali apenas pelo princípio da presunção de inocência. Claro que isso só vale para eles... Quando alguém ousa falar da moral comprometida deles, invocam isso e também a tal da “imunidade”. Em suma: para o restante das pessoas nenhuma imunidade; e são presumidamente culpadas...). Não é de se exigir educação ou mínima noção de seus papéis como legisladores? É preciso realçar que há deputados e senadores educados e corretos. Não posso pecar pela generalização.
Há, porém, aqueles que publicamente exacerbam suas atitudes de ignorância, arrogância, arbítrio e autoritarismo, produzindo perguntas mal formuladas, repetidas, denotando total falta de atenção, desnecessárias ironias, coisas ininteligíveis, além de velhas e gastas piadinhas e gracejos. Essas figuras párvolas e toscas, são tão insensíveis que viram espécies de vítimas de seus próprios atos, solércias e desvairios... (veja-se que ao pretenderem permanecer focalizados por maior tempo possível, fazendo perguntas, e sendo estas impertinentes ou impróprias para a ocasião que deveria ser solene, quando pensam que estão auferindo positiva notoriedade, em verdade estão sendo alvo das maiores chacotas nacionais, mormente nos meios científicos... Pois em matéria de marketing, qualquer principiante sabe que é melhor não aparecer, ou aparecer seminu, que “semi-preparado”).
CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO ....